Por que dietas restritivas aumentam o risco de compulsão alimentar?
Por Stacy Carreri, Psicóloga especialista em comportamento alimentar, compulsão alimentar, comer emocional e relação com a comida.
Quando alguém sofre com compulsão alimentar, a solução parece óbvia.
Controlar mais.
Restringir mais.
Eliminar determinados alimentos.
Voltar para a dieta.
Começar novamente na segunda-feira.
Mas existe um paradoxo que costuma surpreender muitas pessoas:
Aquilo que parece ser a solução pode acabar se tornando parte do problema.
Isso não significa que toda dieta causa compulsão alimentar.
Mas significa que estratégias excessivamente restritivas podem aumentar fatores que favorecem episódios de perda de controle.
O ciclo parece lógico
Depois de um episódio de compulsão alimentar, muitas pessoas sentem culpa.
E a culpa costuma gerar uma necessidade de compensação.
Pensamentos como:
- “Agora vou fazer tudo certo.”
- “Preciso me controlar.”
- “Vou cortar açúcar.”
- “Vou voltar para a dieta.”
geram uma sensação inicial de segurança.
Pela primeira vez em dias, parece existir um plano.
O problema é que esse plano frequentemente se baseia em mais restrição.
Restrição não acontece apenas no prato
Quando pensamos em restrição alimentar, normalmente imaginamos alguém comendo pouco.
Mas existe outra forma de restrição que costuma ser ainda mais comum.
A restrição mental.
Ela aparece quando a alimentação passa a ser acompanhada por pensamentos constantes como:
- “Não deveria comer isso.”
- “Estraguei tudo.”
- “Esse alimento é proibido.”
- “Amanhã compenso.”
Mesmo quando a pessoa está comendo, ela continua vivendo em estado de vigilância.
E isso mantém a comida ocupando um espaço enorme na mente.
O cérebro reage à escassez
O organismo humano foi desenvolvido para sobreviver.
Quando percebe escassez, reage.
Isso pode acontecer através de:
- aumento da fome;
- maior interesse por comida;
- pensamentos frequentes sobre alimentação;
- desejo intenso por alimentos anteriormente restringidos.
Não é falta de força de vontade.
É uma resposta biológica previsível.
O cérebro não entende que você está tentando emagrecer.
Ele apenas percebe que existe menos alimento disponível.
O efeito “já que estraguei mesmo”
Existe um padrão muito comum.
A pessoa passa dias tentando seguir regras rígidas.
Até que em algum momento come algo que considera inadequado.
Um pedaço de bolo.
Um chocolate.
Uma pizza.
Então surge um pensamento:
“Já que estraguei mesmo…”
E o episódio ganha intensidade.
Curiosamente, o sofrimento não costuma vir apenas do alimento consumido.
Ele vem da quebra da regra.
Quanto mais rígida a regra, maior tende a ser a sensação de fracasso quando ela não é cumprida.
O problema não é o alimento
Muitas pessoas passam anos tentando descobrir qual alimento precisam eliminar.
Açúcar.
Chocolate.
Pão.
Carboidrato.
Mas frequentemente a questão central não é o alimento.
É a relação construída com ele.
Quanto mais proibido algo se torna, maior tende a ser o espaço psicológico que passa a ocupar.
Flexibilidade não significa ausência de limites
Quando profissionais falam sobre flexibilizar a alimentação, algumas pessoas interpretam isso como:
“Então vou comer qualquer coisa.”
Mas flexibilidade não significa ausência de critérios.
Significa reduzir a lógica do tudo ou nada.
Significa construir uma relação em que um alimento não determine o valor pessoal de alguém.
Nem o sucesso.
Nem o fracasso.
O objetivo não é comer perfeitamente
Muitas pessoas passam anos tentando alcançar uma alimentação perfeita.
Mas uma relação saudável com a comida raramente é construída através da perfeição.
Ela costuma ser construída através da consistência.
Da flexibilidade.
Da capacidade de lidar com deslizes sem transformar cada episódio em uma crise.
Paradoxalmente, muitas pessoas encontram mais estabilidade alimentar quando deixam de viver em estado permanente de restrição.
Sobre a autora
Stacy Carreri
Psicóloga | Pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Comportamento Alimentar, Transtornos Alimentares e DBT.
Atua há mais de 10 anos acompanhando mulheres que sofrem com compulsão alimentar, comer emocional, efeito sanfona, culpa ao comer e dificuldades na relação com a comida e com o próprio corpo.
Sua prática integra princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Terapia Comportamental Dialética (DBT), Mindfulness e Ciência do Comportamento.
Perguntas frequentes
Toda dieta causa compulsão alimentar?
Não. Mas estratégias excessivamente restritivas podem aumentar fatores de risco para episódios de perda de controle alimentar.
Comer alimentos considerados “proibidos” aumenta a compulsão?
Nem sempre. Em muitos casos, é justamente a proibição rígida que aumenta a preocupação mental e o desejo intenso por determinados alimentos.
Restrição mental pode existir mesmo quando a pessoa está comendo?
Sim. Muitas pessoas mantêm uma relação marcada por culpa, vigilância e regras rígidas, mesmo sem reduzir significativamente a quantidade de comida.
É possível emagrecer sem viver em restrição constante?
Sim. Muitas abordagens atuais buscam promover mudanças sustentáveis sem depender exclusivamente de regras rígidas, proibições e ciclos de compensação.
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