O que fazer depois de um episódio de compulsão alimentar?
Por Stacy Carreri, Psicóloga especialista em comportamento alimentar, compulsão alimentar, comer emocional e relação com a comida.
Depois de um episódio de compulsão alimentar, muitas pessoas fazem uma promessa:
“Amanhã eu compenso.”
A partir daí começa uma sequência conhecida.
Pular refeições.
Fazer jejum.
Cortar carboidratos.
Treinar em excesso.
Voltar para uma dieta extremamente rígida.
O problema é que essas tentativas de compensação costumam alimentar exatamente o ciclo que a pessoa deseja interromper.
Por isso, o que você faz após uma compulsão alimentar pode ser tão importante quanto aquilo que aconteceu durante o episódio.
O primeiro impulso costuma ser a culpa
A maioria das pessoas não sofre apenas pela quantidade de comida ingerida.
Sofre principalmente pela interpretação que faz do episódio.
Pensamentos como:
- “Eu não tenho controle.”
- “Estraguei tudo.”
- “Nunca vou conseguir mudar.”
- “Comigo é sempre assim.”
costumam surgir rapidamente.
O problema é que culpa e autocrítica intensa raramente produzem mudanças sustentáveis.
Na maioria das vezes, elas aumentam o sofrimento e tornam mais provável a repetição do comportamento.
Não tente compensar
Esse talvez seja um dos conselhos mais difíceis de seguir.
Após uma compulsão alimentar, muitas pessoas sentem necessidade de “consertar o estrago”.
Mas a tentativa de compensação costuma aumentar a privação física e psicológica.
E quanto maior a privação, maior tende a ser a vulnerabilidade para novos episódios.
Por isso, embora pareça contraintuitivo, o caminho geralmente não é restringir mais.
É retomar o cuidado.
Volte para a próxima refeição
Não para a próxima segunda-feira.
Não para o próximo mês.
Não para a próxima dieta.
A próxima refeição.
Esse é um princípio simples, mas poderoso.
Um episódio alimentar não precisa determinar o restante do dia ou da semana.
Quanto mais rápido você retorna a uma alimentação regular e equilibrada, menor tende a ser a intensidade do ciclo de culpa e compensação.
Tente entender o contexto
Depois que a intensidade emocional diminui, costuma ser útil fazer algumas perguntas:
- Eu estava fisicamente com fome?
- Há quanto tempo eu não me alimentava?
- Como foi meu dia?
- Eu estava cansada?
- Estava ansiosa?
- Aconteceu algo difícil?
- Eu vinha me restringindo nos dias anteriores?
O objetivo não é procurar culpados.
É procurar informações.
Cada episódio pode revelar algo importante sobre a relação da pessoa com a comida.
Evite transformar o episódio em uma identidade
Existe uma diferença importante entre dizer:
“Eu tive um episódio de compulsão alimentar.”
e dizer:
“Eu sou descontrolada.”
A primeira frase descreve um comportamento.
A segunda descreve uma identidade.
Quando o comportamento vira identidade, a mudança se torna muito mais difícil.
Você não é o episódio que aconteceu.
Você é uma pessoa que está tentando compreender um comportamento que gera sofrimento.
Observe os padrões, não apenas os episódios
Muitas pessoas ficam tão focadas no momento da compulsão que deixam de observar o restante da história.
Mas frequentemente os fatores mais importantes estão antes do episódio.
A compulsão alimentar costuma ser o último capítulo de uma sequência que pode envolver:
- restrição alimentar;
- excesso de regras;
- fome acumulada;
- exaustão;
- autocrítica;
- estresse;
- desconexão das próprias necessidades.
Por isso, compreender os padrões costuma ser mais útil do que analisar apenas um episódio isolado.
O objetivo não é perfeição
Uma relação saudável com a alimentação não significa nunca exagerar.
Não significa nunca comer por emoção.
Não significa nunca perder o controle.
Significa desenvolver recursos para lidar com esses momentos sem transformar cada episódio em uma crise, uma punição ou uma prova de fracasso pessoal.
Mudanças duradouras costumam acontecer quando a pessoa abandona a guerra contra si mesma e passa a desenvolver curiosidade, compreensão e cuidado.
Sobre a autora
Stacy Carreri
Psicóloga | Pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Comportamento Alimentar, Transtornos Alimentares e DBT.
Atua há mais de 10 anos acompanhando mulheres que sofrem com compulsão alimentar, comer emocional, efeito sanfona, culpa ao comer e dificuldades na relação com a comida e com o próprio corpo.
Sua prática integra princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Terapia Comportamental Dialética (DBT), Mindfulness e Ciência do Comportamento.
Perguntas frequentes
Devo fazer jejum após uma compulsão alimentar?
Na maioria dos casos, tentar compensar através de restrição ou jejum tende a alimentar o ciclo de compulsão alimentar.
Um episódio de compulsão significa que o tratamento não está funcionando?
Não. Mudanças comportamentais raramente acontecem de forma linear. Um episódio isolado não define o progresso de uma pessoa.
Como evitar uma nova compulsão alimentar depois de um episódio?
Retomar a alimentação regular, evitar compensações e compreender os fatores que contribuíram para o episódio costuma ser mais útil do que aumentar o controle.
É normal sentir culpa após uma compulsão alimentar?
Sim. A culpa é uma reação frequente. No entanto, quando ela se transforma em autocrítica intensa, pode aumentar o sofrimento e dificultar a mudança.
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